Resenha: A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões (Louise O’Neill)

★ ★ ★ ★ ☆  
Autora: Louise O'Neill
Editora: Darkside
Publicação: 2019

Neste livro publicado pela Darkside na sua fantástica coletânea DARKLOVE com capas e paginação belíssimas, Louise O’Neill nos traz em A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões uma releitura do conto de fadas original de A Pequena Sereia, assim como a animação de 1989 feita pela Disney e um pouco do “vislumbre” da sociedade ainda patriarcal que vivemos hoje.


Enredo

Apesar da capa belíssima, assim como todas da Editora Darkside, o conteúdo do livro revela uma história trágica ainda uma releitura de um conto de fadas igualmente trágico. Muirgen é uma sereia, filha mais nova do Rei dos Mares, que vive em uma sociedade no fundo do mar que é completamente movida pelo patriarcado, padrões de beleza, regras e casamentos arranjados que o próprio Rei Tritão impõe em seu reinado.

No seu décimo quinto aniversário, Muirgen finalmente tem permissão para ir a superfície para ver como é o mundo humano. Lá a sereia se depara com um barco grande que também está acontecendo uma espécie de comemoração e é onde ela ver Oliver pela primeira vez e se apaixona por ele. A partir daí, já começamos a perceber as semelhanças com o conto de fadas original e a versão romantizada da Disney.

O barco acaba naufragando por causa de uma tempestade e Muirgen salva Oliver, fazendo com que ele seja o único sobrevivente desse acidente. Porém, isso causa algumas consequências para Muirgen, pois as chamadas Salkas —- seres que eram humanas e acabaram virando sereias horrendas de dentes afiados porque algo de muito trágico aconteceu em suas vidas e são comandadas pela Bruxa do Mar, testemunham o acontecido e isso pode ocasionar uma guerra entre elas e o Rei dos Mares. E não é só elas que também testemunham. Zale, um Tritão nobre, responsável pelo exército do Rei e o marido prometido de Muirgen, segue a sereia em sua trajetória até a superfície e vendo o acontecido, acaba chantageando ela para que demonstre estar “mais disposta” a ficar se encontrando com ele até seu décimo sexto aniversário, que é quando iriam se casar.

Depois do acontecido do naufrágio, um ano se passa e Muirgen se sentindo cada vez mais “pressionada” com a sociedade sirênica que vive e a tamanha necessidade e falta que sente de sua falecida mãe, a sereia decide abandonar de vez a sua vida no mar para tentar descobrir o que aconteceu com sua mãe no dia que ela desapareceu e fazer com que Oliver se apaixone por ela com a ajuda da Bruxa do Mar. Aqui também temos uma semelhança com a história original, com a sereia cansada do lugar onde vive e indo atrás do desejo de conhecer “o outro mundo”.

Apesar do livro ter muitas semelhanças com o conto original—- aliás, bem mais do conto de fadas original do que própria romantização que a Disney criou, também existe vários elementos que Louise O’Neill criou e explorou na sua própria releitura vista por um lado quase que completamente feminista e que fala muito sobre empoderamento e o local de fala da mulher na sociedade.

“Eu sou Muirgen, filha do Rei dos Mares. Eu sou Gaia, a sereia que desejava tanta coisa, que olhou para cima, que se apaixonou por um menino. E eu sou Grace, a garota que dança sobre dedos estilhaçados, sorrindo acima da dor como se não fosse nada.”


Minha opinião

Como eu já escrevi ali em cima, a narrativa tem muita semelhança com o conto original da Pequena Sereia e por se tratar de uma releitura, a autora ainda trouxe acontecimentos “clássicos” da história do conto, apesar de que também incluiu coisas de sua própria criação. A narrativa é bem dinâmica, de rápido e fácil leitura. Contada pela própria Muirgen, não só a narração em si, como também é focado no psicológico da personagem.

Apesar da leitura ser rápida e fácil, eu confesso que demorei um pouco para ler no começo porque eu achei a história meio difícil de digerir no início dela. A primeira parte do livro (os primeiros capítulos), Louise nos apresenta o “ambiente” em que Muirgen vive e sobre a sociedade sirênica que fica no fundo do mar. É basicamente uma sociedade completamente machista, de uma maneira muito pior que na superfície, em que a mulher sereia não tem nenhum lugar de fala.

As sereias vivem exclusivamente em favor de sua beleza, sendo considerada apenas um “objeto” de desejo e prazer e são ensinadas a pensarem assim pelos seus próprio pais. São também sujeitas a “procedimentos estéticos” dolorosos para atingirem a tal “perfeição”, como tirar suas escamas e costurar pérolas em sua causa para indicar sua posição na nobreza. O mais curioso e até absurdo de tudo, é que o próprio Rei dos Mares é quem “determina” tal estética de beleza e banindo de seu reino quem ele não considera que não tenha o padrão determinado. E isso é cobrado mil vezes pior com as suas próprias filhas, fazendo com que tenha um pouco de rivalidade entre elas e uma submissão familiar completamente abusiva.

Ao meu ver, Louise O’Neill foi bem inteligente em trazer tais assuntos para sua releitura de uma história bem antiga. Assuntos como a luta contra o patriarcado, o machismo na sociedade e o lugar de fala da mulher são bem recorrentes hoje em dia e é de extrema importância que eles sejam discutidos também. Ler o livro A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões se tornou algo essencial para nos conscientizar sobre isso.

Uma coisa que me chamou muito a atenção em A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões, foi a releitura da Bruxa do Mar. Ela é completamente o oposto de uma “bela sereia” e o que ela deve ser para sobreviver na sociedade sirênica e a Bruxa demonstra e fala que sempre está muito confortável consigo mesma, sem ter que seguir regra ou padrão algum. Outra coisa foi as consequências que Muirgen teve que enfrentar com a transformação de sua cauda por pernas, o que acabou deixando um aspecto meio macabro e interessante para a história.

Uma última coisa que acho que vale a pena mencionar, é sobre a motivação de Muirgen em ter saído do “fundo do mar” e ter indo para a superfície. E para isso, terem que citar a motivação de Ariel na animação A Pequena Sereia da Disney. Eu sempre escutei relatos de pessoas que amam as músicas do filme, mas não gostam do filme em si porque “Ariel muda de forma para ficar com um homem” e eu não acho que isso tenha acontecido. Eu sou completamente contra mudar o que eu sou por causa de outra pessoa, mas eu não vi Ariel fazendo apenas isso no filme, pelo simples fato de que ela nos foi apresentada como uma sereia muito curiosa, principalmente pelo mundo humano e o fato de ela ter se apaixonado pelo príncipe Eric, só foi o que deu a sereia ainda mais uma motivação para buscar o que sempre quis.

E a mesma coisa acontece com Muirgen. Quando a personagem é apresentada, ela já nos diz que sente um vazio profundo por não ter conhecido a mãe, de querer ter conhecido ela e de querer saber o que realmente aconteceu com ela na superfície. Esse sentimento da falta da mãe juntou com a necessidade de querer sair de um mundo “sufocante” e ir atrás do menino por quem se apaixonou. Chegando lá, a sereia percebe que o mundo humano não é tão diferente assim do mundo em que veio, visto que a mulher humana ainda tem uma “dificuldade” de se impor e de ser aceita, o que acaba sendo um choque de realidade para a personagem e por isso o nome Reino das Ilusões, título do livro aqui no Brasil, tirado do original The Surface Breaks.


Sobre a autora

Louise O’Neill é uma escritora irlandesa feminista focada no público jovem adulto e também trabalha como freelancer em vários jornais e revistas de seu país escrevendo matérias sobre feminismo, moda e cultura pop.

Até agora já tem quatro livros publicados cujo nomes são Only Ever Yours (2014), Asking for It (2015), Almost Love (2018) e The Surface Breaks (2018). A autora também vendeu os direitos do livro Only Ever Yours para uma adaptação cinematográfica e do livro Asking for It para uma série televisiva.

Um comentário sobre “Resenha: A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões (Louise O’Neill)

  1. Guilherme Mendes disse:

    Nossa eu amei a estética do post e amei a forma como você dividiu em partes para ir dando os detalhes da obra e fiquei maravilhado com suas palavras, confesso que nunca li nenhum livro da darkside e você me deixou muito interessado por esse, com certeza tentarei enfiar ele na minha tbr desse ano.

    Curtir

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